A História do Queijo do Barão

por Silvio T Corrêa

 

    Em férias, na ilha de Fernando de Noronha , encontrei uma pequena caixa, de madeira muito leve, lacrada com uma massa pastosa que eu não soube reconhecer a natureza do material. De qualquer maneira, impedia a entrada de umidade, protegendo o seu conteúdo.

    A escondi entre algumas pedras e retornei, na madrugada, para buscá-la.

    No quarto do hotel, com muito cuidado e a ajuda de um estilete, comecei a raspar aquela massa preta e pastosa, que … por Deus !! … parecia uma tarefa interminável.

    Um pequeno cadeado, enferrujado, me separava do conteúdo. Uma estocada com o pé da cadeira, e o artefato estuporou!

    Dentro, um embrulho cilíndrico com uns 10cm de diâmetro. Certamente haveria “diversão” para o resto da noite e, talvez, para todo o dia.

    Com cuidado desfiz o embrulho.

    Devido a ação do tempo acredito parte de alguns papéis tornaram-se pó, no simples toque. Papéis importantes, como eu descobriria com o desenvolvimento dos trabalhos de pesquisa.

    Journal Intime de Baron de Mon… estava escrito na primeira página, em parte desfeita, do calhamaço. O Diário do Barão de Mon… . Fosse quem fosse esse barão eu não poderia, por enquanto, saber-lhe o nome. Passei a chamar-lhe de Barão do Mont, pois a quarta letra me parecia um “t”.

    E agora eu não fazia outra coisa a não ser pensar no Barão de Mont. Guardei a caixa, antes que a minha esposa acordasse. Não queria que ninguém ficasse sabendo do meu “tesouro”.

 

    Não adiantava! Rolava de um lado para o outro e sono não chegava. O céu já dava os primeiros sinais de luminosidade e eu com os olhos arregalados. Fui tomar um banho!

    Acho que dormi na banheira, pois acordei com as batidas na porta avisando que já estavam descendo para o café. Ainda bem que o lavatório ficava separado do banho, pois seria difícil arrumar uma desculpa. Aproveitei o quarto vazio para dar uma olhada no material.

    Durante o café, inventei uma história de que estava com dor de cabeça e que não dormi bem à noite. Portanto, voltaria para dormir até a hora do almoço. Se “colou” eu não sei, mas eles aceitaram.

    No quarto, abri a caixa e espalhei, com muito cuidado para não estragar mais folhas, o material sobre a cama.

    Na segunda folha, desfeita na diagonal, surgia a imagem de um castelo que, certamente, seria do Barão de Mont. A área em volta do castelo era muito bonita, com detalhes que, até hoje, eu não sei se eram realmente magníficos ou a minha empolgação os faziam assim.

    Ah! Finalmente o diário. O meu domínio da língua francesa é nenhum, mas por ser uma língua latina, dava pra entender muitas coisas. Quando retornasse, eu pediria a um amigo que traduzisse, mas agora eu tinha que me virar.

    O Barão, na verdade Charles Dufuet, começa o seu diário em agosto de 1902, a 4 dias de uma pequena festa, quase uma reunião, nas dependências do castelo. Com o decorrer da minha leitura, veria que as festas do Barão eram constantes e muito comentadas naquela região da Suíça.

    O Barão nunca fazia festas suntuosas e, por isso mesmo, eram muito disputadas.

    Contava ele, o Barão, que estava preocupado com a festa pois desprovido que estava de numerário suficiente para bancar o forrobodó, encontrava-se receoso de ter necessidade de cancelar a festa para que a comunidade não soubesse da sua situação atual.

    Angéline, a serviçal mais antiga, contemporânea do Barão, se condoía ao vê-lo naquela “paúra”. “Mas como ajudá-lo?” pensava em voz alta.

    Francesa, com descendência libanesa, Angéline conhecia bem a culinária mediterrânea e propôs ao Barão que ela preparasse a comida para a festa. O Barão ficou receoso com a ideia, apesar de conhecer os dotes culinários de Angéline. Depois de pensar, mesmo porque não tinha outra saída, aceitou a oferta.

    Angéline providenciou diversas especiarias para acompanhar. Ela pensava em fazer o laban aqui conhecido como coalhada síria , com modificações na receita original. Seria apresentado de diversas formas e degustado com pão e azeite. O vinho ficou por conta do Barão.

 

    Angéline providenciou tudo para fazer a iguaria. O serviço seria para 30 pessoas, aproximadamente.

    Com a aproximação do dia, Angéline sentia-se ansiosa e a movimentação na cozinha do castelo era intensa. Todos que podiam, ajudavam.

    Vidros e mais vidros, contendo bolas brancas, escuras e coloridas. Contendo cilindros recheados e pequenos discos de uma massa branca. Tudo sempre imerso em puro azeite de oliva. Certamente o azeite já era conhecido como excelente conservante.

    Finalmente o grande dia e – o próprio Charles nos conta em seu diário –, o Barão ficava mais preocupado à medida em que a hora dos convidados chegarem se aproximava. Como seriam recebidos os quitutes de Angéline? Seriam aprovados ou serviriam de motivo para chacotas?

    Angéline e equipe distribuíam no salão em locais onde comumente reúnem-se pequenos grupos, os vidros com os petiscos.

    Na mesa principal, bandejas com variados tipos de pães, devidamente cortados para que as pessoas pudessem fazer a sua porção desejada. Outras, com uma espécie de rocambole de massa de queijo. Uns recheados com tomate seco, outros com azeitonas. Bandejas menores com bolas, da mesma massa do rocambole, sendo que algumas estavam envoltas em orégano e outras especiarias e outras, com a própria massa misturadas às especiarias. Eu não poderia dizer com certeza, mas talvez o Barão tenha criado a primeira festa do queijo.

    As pessoas provavam com um certo receio, mas logo faziam uma fisionomia de aprovação, parabenizando o Barão pela excelente ideia. Diz o Barão que naquele momento a ansiedade desapareceu e ele foi à cozinha e deu um estalado beijo na bochecha de Angéline, ainda que tivesse outro desejo.

 

    No dia seguinte, pela manhã, Angéline chegou esbaforida! No centro de comércio da região não se falava em outra coisa, senão na festa do Barão e nas suas ideias. Alguns chegaram a chamá-lo de Barão do Queijo. Angéline estava toda prosa!

    Apesar de tudo, o Barão estava cabisbaixo. Só lhe restavam uns caraminguás e o castelo, que sempre pertenceu a sua família! Ele não sabia o que fazer!

    Por duas vezes já pedira dinheiro a Yacoub Corm e não tinha coragem de pedir novamente, ainda mais que o amigo estava em preparativos avançados para a busca de novos negócios, em alguma terra distante.

    Por uma dessas coincidências que não sabemos explicar – da forma que deixou registrado, o Barão também não sabia –, Yacoub, naquela noite, resolveu fazer-lhe uma visita, pois há muito não se viam.

    Yacoub chegou fazendo alarde sobre o Queijo do Barão, que ouviu falar quando parou para resolver alguns negócios.

    – Ah, meu amigo! Esse povo fala muito! Exagera demais!

    – Estais, agora, fazendo queijo, Charles? Conte-me, mas antes me de um abraço!

    – Yacoub, você sabe da minha situação atual e contigo posso ser verdadeiro.

    – Claro meu amigo! Sou só ouvidos!

    – Com uma pequena festa, das que você já frequentou, marcada, me vi em situação constrangedora, não tendo dinheiro. Angéline, que você conhece, sugeriu preparar os quitutes com algumas receitas. Acabei aceitando a oferta para não desmarcar a reunião.

    – Que receitas são essas! Algum queijo francês?

    – Não amigo, acho que não! Parece-me que o nome correto é lanbam, e que Angéline fez algumas adaptações.

    – Não seria laban, Charles? É típica do Líbano.

    – Não sei, pode ser. Me aguarde alguns instantes.

    Indo até a cozinha, O Barão pegou algumas bolas de queijo e um rocambole que sobrara da noite anterior; encheu uma travessa com pães e levou para o pequeno escritório, aonde conversava com Yacoub, sem esquecer a garrafa de vinho tinto.

    – Isso mesmo Yacoub! Laban! Parece-me que Angéline fez algumas mudanças. Prove!

    – Muito, muito bom! Boas combinações de sabores! Angéline está de parabéns!

    Continuaram conversando por um par de horas e, durante a conversa, contou que dentro de 2 meses estaria viajando para o Brasil, para São Luíz do Maranhão. Vários sírios e libaneses, amigos seus, estavam indo para lá.

Diante do que o Barão lhe contara, Yacoub perguntou se Charles não gostaria de acompanhá-lo e tentar novos negócios em terras novas.

    Definitivamente, Yacoub mexera com o Barão! Balançara as estruturas daquele senhor naquela época já era considerado um “senhor” de 44 anos, que ficou parado, meio abobado, durante quase um minuto. Não respondeu nada e andou “pra lá e pra cá”, como se estivesse pensando, mas diz que, na verdade, não pensava em nada, apenas andava.

    – Charles! Charles! Então, o que me diz?

    – Yacoub, meu amigo! Sua oferta é muito generosa e tentadora, mas não quero respondê-la agora. Posso responder em 1 semana?

    – Claro Charles! Como disse, só partirei dentro de 2 meses!

    Conversaram, mais um pouco, sobre outros assuntos e se despediram.

 

    O Barão, naquela noite, não conseguiu dormir. Chegou mesmo a acender um charuto, coisa que já não fazia há anos.

    No café da manhã, chamou Angéline para conversar.

    “Aqui, o Barão explica que ele e Angéline têm a mesma idade e que foram criados juntos. Explica também que ele tem uma grande paixão por Angéline e que, talvez, esse seja o motivos por nunca ter se apaixonado por outra mulher ou, mesmo, se casado.”

    – Angéline, você sabe que a nossa situação não é boa. Já conversamos sobre isso!

    – Sim Charles, você já me contou. Me parece apreensivo! Posso ajudar?

    – Ontem Yacoub esteve aqui! Conversamos muito e ele me fez um convite.

    – Diga homem!

    – Me convidou para ir com ele, dentro de 2 meses, para o Brasil. Eu não sei o que pensar Angéline! Em menos de 12 horas minha vida ficou remexida!

    – Não é pra menos! A mudança é drástica! Além de viajar pra tão longe tem o castelo da tua família. Sei que o Conde, seu colega, está há muito interessado no castelo, mas é uma decisão difícil.

    – Quero que me ajude a decidir!

    – Como posso ajudá-lo a decidir sobre algo que vai influenciar a minha vida. Toda minha vida foi dedicada à sua família.

    – Mas irás comigo Angéline! Achou, por algum momento, que eu te deixaria aqui?

   Angéline sorriu, enquanto tocava os dedos da mão direita com os da esquerda; balançou, rodopiou nos calcanhares e saiu, sem pronunciar qualquer palavra. Foi um momento marcante pra Charles Dufuet.